Estação Poética

31.12.06

Ópio


Inocente papoula
(brisa e matizes)
assim é o amor
Soubessem
do ópio,
tolos amantes,
não tocariam
a inócua flor

29.12.06

Legado


Aos meus filhos
deixo o passaporte
com visto de entrada,
livros, escritos sem data,
objetos de estimação,
alguns caracteres
físicos e traços
de alma profundos...

28.12.06

Amor e flor


Plantei uma muda;
cresceu com água,
sol e vento.
Flor e fruto
brotaram com o tempo.
Plantei um amor;
reguei de beijos,
cuidados e espera.
Amor e flor tão diferentes:
um volátil, insustentável,
outro preso à terra.

27.12.06

Domingo


Hoje é domingo,
pé de cachimbo;
Crianças felizes
brincam e gargalham;
Atiram pedrinhas,
perseguem besouros;
Descobrem na terra
o grande tesouro;
Correm tontos,
caem, levantam
e na grama descansam,
pois ninguém
é de touro.

Água Doce


A vida inteira
ah, quem dera...
A vida inteira
ah, que fosse...
Um cheiro fresco de terra,
um sabor de água doce.
Uma roseira de esperança,
o dia-a-dia me trouxe,
um cheiro fresco de terra,
um sabor de água doce.

Mina


Homens candeias
rasteiam brilho alheio.
Cascalhos e dentes
rangem sob
carvoentas peles.
Veios implodem
e dilatam pupilas
na ilusão do
ouro breve.

Intimismo


Custam-me
casamentos
e velórios:
em respeito
aos noivos
e aos mortos.

Frisson


Vai a mulata,
olho malícia,
bocarnuda,
seios fartos,
no passo, compasso,
de pernas nuas.
Vai a mulata,
pele bronze,
corpo moldado,
atiçando ruas
vestida num
tomara que
c
a
i
i
i
i
i
u

Frisson


Vai a mulata,
bocarnuda,
seios fartos,
riso ladino,
no passo ,compasso
de pernas nuas.
Vai a mulata,
bronze moldado,
atiçando ruas,
vestida num tomara
que
c
a
i
i
i
i
u

23.12.06

Natal

A árvore antes
desnuda,
agora brilha
e acende a noite
de Natal.
Seus ramos
balançam guisos
como festa e,
no berço de luz,
o Menino
sonha a paz.

20.12.06

Penélope


Tempo implacável,
em qual tear hei de urdir
a trama desse idílio?
Se longo é o dia
e tênue o fio,
breve será a noite
a desfazer o linho.
Como suportar
a infinita espera
se, para vivê-la,
conto apenas
com o amor,
essa ardilosa teia.

Pasto


O gado no campo
para o repasto.
Não bastam ao homem
o leite e o coalho?
Vai o boi manso,
olho baixo,
do enganoso pasto
ao talho.

Prelúdio


O pai é uma nota grave.
As crianças saltitam em
tons e semitons...
A mãe olha tudo
numa réstea de sol
e adormece em dó agudo.

Felino


Era uma vez
um gato
e um pássaro.

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

Era uma vez
um gato...

Pesca


O pai quedava
dias e noites
na pesca.
A lua cheia
clareava os peixes
na espia dos anzóis.
Uns fugiam
transparentes,
outros tremulavam no ar
como prata.
Das mãos ao gume,
restavam frios, olhos vítreos e
escamas opacas.

14.12.06

Maria


O mar ia e voltava
no embalo a soletrar:
Ma ri a...
Ma ri a...
A rima era doce
e, no mundo da poesia,
o mar ia e voltava
abraçado com Maria.

Pitomba



Pitomba verde,
amarela,
doce esponja
grudada ao caroço.
Nos dentes, a casca (ploc)
e a fruta delícia,
bolando gude
no céu da boca

Naufrágio


A folha em branco
é um barco no oceano, perdida.
As idéias flanam
e o papel naufraga
no mar de palavras, despido

Fragmentos


Pele e osso me desfiguram:
sou lança partida ao meio,
um coração desabitado
de lembranças ou saudades;
de tão passiva, nem taquicardia...
Às vezes, dou-me ao luxo
de pequenos vícios e
canto por dentro.

Anjo Nordestino


Voava à toa
um anjo pequenino
trazia nas asas:
“Sou nordestino”.
Vida pouca,
pão dividido,
brinquedo velho,
carinho esquecido.
Empinando pipa,
vivia ao léu –
um dia voou,
voou o mais alto
e hoje brinca no céu.

Vicissitude


Olho o horizonte
dentre as árvores tortas
do cerrado.
Nessa visão linear,
que fazer com
os altibaixos?

13.12.06

Caridade


Alguns batem à porta
e mendigam o pão.
Às vezes dou-lhes sobras
e escuto:
- Deus lhe pague!
Ou nego-lhes e digo:
- Perdão!
Espio culpas e folheio o evangelho:

“...Esta, porém, na sua penúria
ofereceu tudo o que possuía para viver”.

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Imagino o paraíso e
passo noites em claro...

Libido

As mãos delineam
a intimidade, na busca
de latentes segredos.
Assim como as estações
os desejos acordam
e adormecem.

11.12.06

Legado

Aos meus filhos deixo
o passaporte de entrada,
livros, escritos sem data,
objetos de estimação,
alguns caracteres físicos e
traços de alma profundos.

8.12.06

Mãe

Amor antigo e visceral,
roca paciente a fiar os filhos,
o trabalho e a oração.
Há quem diga
que os dedos das mães
são iguais.

7.12.06

Ladainha

Manhãzinha,
o jasmim abrindo maio.
As mulheres rezam a ladainha e
no vai e vem da rede as crianças
acompanham a prece.
No oratório,
a Virgem adormece de cansaço
São tantos pai-nossos...
São tantas ave-marias...

Vigília

Procuro a palavra
como agulha no palheiro.
Na vigília,
transponho madrugadas
e pesadas pálpebras.
Insones, o verso
e a noite me espetam.

6.12.06

Felicidade

Quando criança,
costumava indagar alguns mistérios ...
Certa vez, íamos de mãos dadas quando,
fitando-a profundamente, perguntei:
- Mamãe, o que é felicidade?
Entre um muxoxo
e perplexa, puxou-me a
orelha e respondeu:
- Isso é pergunta que se faça?


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O Pai

Sob camadas tênues
do tempo o pai repousa.
Lembranças tornam
e um desfile memorável
(entremeado de riso e choro)
repete o cotidiano singular.
À mesa nos benzíamos
ante o santo serviço e,
no recolhimento da noite,
ouvíamos contos da carochinha,
gratificados por mais um dia..
No limiar da fronteira
que nos separam,
ouve-se o farfalhar das suas asas...

Cortejo



Passeio alegre,
cortejo triste,
eis a vida em marcha.
Ao vivo a sua vida,
ao morto a sua morte.

Papoula


Inocente papoula,
(brisa e matizes)
assim parece o amor.
Soubessem do ópio,
parvos amantes,
não tocariam
a inócua flor.

5.12.06

Ode ao Cavalo



Vejo nos olhos tristes do cavalo
a dor que carrega no dorso.
Infelizes bestas
e desalmados donos;
Esses por saberem o peso da vida,
deveriam poupar-lhe a carga
e oferecer-lhe a liberdade do campo.